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O infinito na alma e a tradiçao agostiniana

S. Agostinho, S. Anselmo e S. Boaventura constituem como que a espinha dorsal do neoplatonismo cristão no Ocidente. O que eles compartilham nessa herança é a noção de que o homem é um microcosmo, uma imagem do universo. S. Agostinho foi naturalmente o primeiro quem tratou de encarnar esse conceito na filosofia cristã, partindo do auxílio das Escrituras. S. Anselmo e S. Boaventura são neoplatônicos na medida em que digerem Platão por esse canal aberto pelo bispo de Hipona.

O homem é a imagem de Deus, e, por isso, o seu composto alma/corpo é uma cópia fulgurante da ordem da realidade. Há um plano espiritual e um plano material tanto num como noutro. Encontramos um mundo corpóreo no universo assim como o encontramos em nossos órgãos; vislumbramos o resplandecer da ordem celestial da mesma forma com que nossos conhecimentos racionais mais elevados iluminam o nosso atuar sobre o mundo.

As analogias são praticamente inesgotáveis. O importante é ter a noção de que o composto humano é, exatamente como o cosmos, uma hierarquia perfeita. O homem é a única criatura que pode se comportar como ser vegetativo, como ser sensitivo e como ser racional numa mesma alma.

Porém há mais do que isso. Há no homem algo ainda mais superior do que a ordem racional, e que lhe ultrapassa por uma abundância inenarrável. O próprio Platão já havia demonstrado no livro VI da República que existe uma capacidade na alma humana de “saltar” do fluxo de relações intelectuais para a o campo da afirmação dialética, uma capacidade direta e inexplicável por qualquer outra que haja na alma: noein, isto é, ver. No entanto, é possível ir ainda mais longe, e perceber que no centro desta própria capacidade está o fundamento de todas as outras capacidades. A razão não pode explicar a própria razão. A sensação não pode explicar a sensação. A percepção não pode explicar a própria percepção. Somente uma atividade que explique a si mesma pode coroar a hierarquia da alma humana, e é preciso que ela seja de uma natureza inesgotável. Há esta natureza infinita na alma. S. Agostinho viu isso de uma forma espantosamente clara.

Bom, uma noção que infelizmente foi muito perdida dentro da própria Igreja é a de que Deus não é só transcendência, mas imanência. Isto é, Deus não é o Ser absoluto totalmente à parte; ele é absoluto justamente porque, além de ser o mais eminente, como Ser paradigmático, está presente em todos os outros seres. Deus existe como governante e como fundamento. Quer você parta desde a experiência das coisas, ascendendo por ordens cada vez mais elevadas, quer você olhe para dentro de você mesmo, imergindo na realidade mais profunda da sua alma, lá estará Deus. Você não tem como escapar. Nem você, nem ser algum. A pedra não escapa, porque existe; o animal não escapa, porque existe e sente; o homem não escapa, porque existe, sente e raciocina.

Esta inalienabilidade de Deus é o tema máximo dos três autores. Vê-se de maneira perfeita uma linha ascendente dessa experiência direta do “inescapável”, partindo de S. Agostinho até S. Boaventura em graus cada vez mais altos de abstração e abrangência epistêmica.

Se S. Agostinho no fallor ergo sum compreendeu que a sua própria capacidade de duvidar da existência já aponta para um base infinita que não é ele próprio enquanto ser vivente (mas que é ele próprio enquanto ser participativo), S. Anselmo vai buscar essa raiz do Infinito na essência mesma do discurso. O que ele demonstrou, e que infelizmente foi muito ignorado pelas mais diversas mentes nesses mil anos, incluindo a do grande S. Tomás, é que a própria possibilidade do conceito quo maius non potest (“do qual nada maior pode haver”) já contem em si uma necessidade inabalável: Deus. Se o opositor afirma que não podemos fazer uma transposição do conceito para a realidade, ele não entende que o conceito não depende de comprovação empírica, porque é a natureza desse conceito que pertence a uma ordem infinitamente superior à dos entes naturais.

É isso o que S. Anselmo queria dizer em sua tréplica ao monge Gaunillo e ao exemplo da “ilha perfeita” utilizado por este. Além disso, o que está implícito em todo o texto de S. Anselmo — e mais do que nunca aí você encontra ecos retumbantes da experiência agostiniana — é que todo e qualquer exemplo superlativo, não importa sobre que ordem da realidade — “a pedra perfeita, da qual nenhuma maior pode ser pensada”, “a estrela perfeita, da qual nenhuma maior pode ser pensada”, “a criatura perfeita”, “a vida perfeita”, etc, etc — está fundado sobre o quo maius non potest. Mais: a própria insistência num modelo cada vez mais eminente, “mais infinito” do que o anterior, também atesta a natureza infinita dessa experiência. Não adianta o “insipiente” (como o designa S. Anselmo) afirmar que “há algo maior do que o que maior se pode pensar”; ele é insipiente porque ele não compreende que essa interminável superação é a própria presença da infinitude. Voltando a S. Agostinho, é o duvidar que prova o objeto da dúvida.

Então, chegamos em S. Boaventura. Considero o Doutor Seráfico o maior dos escolásticos, superior até mesmo ao Aquinate. No santo de Bagnoregio se encontra a mais perfeita síntese platônico-aristotélica impressa na mentalidade cristã. Como mostrou Hans Urs von Balthasar, S. Boaventura leva a doutrina agostiniana e neoplatônica ao limite da sua expressão, sendo ainda capaz de dar um último e definitivo salto.

O que ele faz é alçar a experiência íntima da infinitude a um sistema positivo no qual a alma e o universo coadunam-se nas mais perfeitas harmonias. O microcosmo de S. Boaventura é a exata expressão do seu macrocosmo filosófico. Como disse o prof. Olavo em um trecho de sua História Essencial da Filosofia, “não é possível você distinguir o que é a filosofia de S. Boaventura do que é a alma de S. Boaventura”. Quando a hierarquia do homem espelha perfeitamente a hierarquia do cosmos, é aí então que encontramos a alma sumamente realizada.

Diz ele em suas famosas Collationes in Hexameron: “A verdade é a luz da alma; esta luz não conhece declínio. Com efeito, ela irradia-se com força sobre a alma, de maneira que esta não pode nem pensar nem dizer que não é, sem que o homem se contradiga a si mesmo; pois se a verdade não é, é verdadeiro que a verdade não é: logo algo é verdadeiro; e se algo é verdadeiro, é verdadeiro que a verdade é; logo, se a verdade não é, a verdade é.”

Longe de ser uma tautologia, são palavras que unicamente explicitam, em forma de discurso, uma experiência que muitos místicos julgam inenarrável.

Não tenho como cobrir neste espaço as infinitas luzes que S. Boaventura joga sobre o tema, então aproveitarei só mais uma citação. No Comentário às Sentenças, I, proem., q. 2, ad. 5 (I, 11 b), lê-se: “Pois a fé eleva à afirmação; a ciência e o intelecto elevam a entender o que se crê.

Que quer ele dizer com isso? Ora, qual é a natureza da fé? Não é ela a atividade volitiva por excelência? Não é ela um querer que, em essência, independe de toda e qualquer demonstração, de toda e qualquer anterioridade dianoética? Diferente da acepção que ela acabou tomando no mundo moderno, muito por conta do Protestantismo, a fé não é uma “fé cega”, não é um desejar o impossível dentro de um número determinado de condições simplesmente porque o sujeito se encontra em uma situação que julga irreversível. Pelo contrário, a verdadeira fé é a atividade mais iluminada da alma, a mais sublime visão que podemos ter. Este é um ponto fundamental para S. Boaventura.

Não por menos que o seu antecessor S. Anselmo fazia a distinção entre fides otiosa, traduzida como “fé morta”, e fides operosa, a “fé viva”. Dizia ele no Monológio que “a fé viva consiste em crer naquilo [ in id ] em que se deve crer; e que, ao contrário, a fé morta é crer somente aquilo [id] que se deve crer.” Quando o homem tem fé na coisa simplesmente pela coisa, sua fé é morta; ele não atinge a glória latente que há em sua alma. Mas quando o homem tem fé num algo para além da coisa, quando mergulha no âmago da coisa, imergindo até o fundamento divino, abre-se uma fonte infinita, cujo esplendor nenhum outro estrato da alma poderá conter. Como repete reiteradamente S. Boaventura, a verdade é a luz que ilumina a alma, enquanto Deus ilumina todas as coisas, que sem Ele jamais sairiam da escuridão do Nada.

Ao contrário da maioria das abordagens, que focam sempre nas analogias de um existir infinito no pós-vida, antes eu considero de suma importância, e para isso balizo-me nesses três grandes mestres, entender que desde já, aqui, nesta vida, é possível compreender o quanto há de infinito na sua alma. Há um estrato em você que não depende de você, há em sua alma uma fonte de vida que independe da sua própria vida.

 

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